O que é beleza afinal? Terminei meu post de ontem, primeira parte desse texto, com essa pergunta e com uma foto clássica de Nina Simone (também nas fotos do post atual). A escolha de tal mulher para ilustar meus argumentos não foi por um acaso. Ela tinha o que muitos chamariam de "cabelo ruim" e, para mim, é o exemplo da beleza que não é óbvia, da beleza que emana de dentro para fora e transparece no olhar. Ela era o que sem dúvidas podemos chamar de DIVA, de personalidade magnética e obra inigualável. É possível que a maioria de vocês esteja se perguntado quem é essa pessoa. Eu a apresento, para quem ainda não teve o prazer de "conhecê-la".
Ela é Eunice Kathleen Waymon, cantora, compositora, pianista e ativista em prol dos direitos civis, uma americana nascida em 1933 e falecida em 2003. Quando criança teve seu talento reconhecido pelos patrões de sua mãe, que a proporcionaram estudar música clássica, sendo a primeira mulher negra a ingressar, na década de 1950, na conceituada Julliard School of Music, em NY. Ela acabou se tornando uma das mais importantes figuras do jazz, embora sua obra abrangesse também o blues, o soul, o folk, o gospel e o folk. Dona de uma voz ímpar e muito expressiva, sempre acompanhada do piano, que ela mesma tocava com maestria, foi admirada ao redor do mundo e chamada de "the high priestess of soul", a sacerdotisa do soul, da alma.
Nina Simone foi dona de grandes sucessos, verdadeiros clássicos da música, como My Baby Justa Cares for Me, Feeling Good, I put a Spell on You, Sinnerman, I Want a Little Suggar in my Bowl, Since I Fell for You, entre outros. Priorizou em sua música a interpretação intensa, a expressão dos sentimentos e a força das ideias, mais do que uma suposta "pureza musical" ou fidelidade a um gênero ou estilo. Mais ainda, usou sua música como forma de lutar contra o racismo e a discriminação.
Mississipi Goddam foi composta por ela em 1963 após o assassinato de quatro crianças negras numa igreja em Birmingham, no Alabama, e se tornou um hino ativista, música de protesto, ao dizer "You don't have to live next to me, just give my equality" .
Outra grande música interpretada pela cantora foi To be Young, Gifted and Black, em que diz: "em todo o mundo, você sabe/ há bilhões de rapazes e moças/ que são jovens, talentosos e negros/ e isso é um fato!". A música, lindíssima, foi um hino ao orgulho de ser negro, à valorização de não apenas uma aparência divergente do padrão estético do branco, anlgo-saxão, mas à plena capacidade do negros em todos os aspectos. Ela anunciava um novo mundo, uma renovação da esperança numa sociedade manchada pela guerra intolerante em relação à diferença, guerra encabeçada por organizações como a abominável Ku Klux Klan.
Em I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free ela cantou seu desejo de ser verdadeiramente livre e igual, de romper fronteiras, sobretudo raciais, que separavam as pessoas condenavam os negros a uma posição socialmente considerada inferior, à falta de oportunidades e a toda forma de perseguição. Em Why? (The King of Love is Dead) presta uma homenagem a Martin Luther King, pastor da Igreja Batista que se tornou líder do movimento pelos direitos dos negros e pelo fim da segregação racial pregando o uso de meios pacíficos, que viveu sob constantes ameaças e que foi assassinado em 1968. Imaginem como essas músicas e ideias de igualdade e liberdade soaram na sociedade estadunidense nas décadas de 60 e 70, na qual ainda estava vivo o racismo e a violência contra minorias étnicas e religiosas que atingiram seu ápice entre o fim do século XIX e primeiras décadas do século XX.
Nina Simone foi uma grande artista, cuja importância ultrapassou a música e a arte; sua vida e sua obra contribuíram para a humanidade ao falar alto a favor da igualdade entre os homens, ao combater sem medo a segregação e seus métodos violentos, ao ter coragem de se expressar como pessoa, como negra e como mulher, mesmo contra a maioria. Com sua expressão artística não se encerrou na esfera narcisista e fútil em que parecem viver parte dos músicos a artistas nas últimas décadas. Sua existência transcendeu o "eu" e alcançou o "nós". E o que isso tem a ver com beleza?
Considero a artista um dos grandes exemplos dessa beleza na qual acredito, livre de estereótipos e preconceitos, forte, altiva, orgulhosa de si, esclarecida, inteligente, corajosa e por tudo isso, poderosa e transformadora. Numa sociedade em que mulheres e negros eram vistos como seres de "segunda classe", marginalizados e perseguidos, uma mulher negra alcançou projeção e respeito, deu a "cara a tapa" com dignidade extrema, assumiu sua identidade diferencial e contribuiu para o desenvolvimento de sua nação e do mundo. Em toda foto ou vídeo de Nina Simone, me sinto hipnotizada pela chama, pela força do seu olhar, pelo sentimento de que ali estava uma mulher que se sentia confortável na própria pele e que era feliz em ser extamente como era.
Quando vejo as "celebridades" de hoje e noto tantas mulheres que buscam desesperadamente copiar o "estilo" de olivias, alexas e fulanas, eu me preocupo e me pergunto sobre o que essas figuras fizeram para serem tão admiradas. Vejo com frequência pessoas apenas com preocupações estéticas, acreditando que serão boas à medida em que acompanham mudanças da moda, do modelo de sapato, sem qualquer pretensão de elaborar mudanças interiores, e me valho da milenar máxima oriental que diz que toda forma, em si mesma, é vazia se carece de conteúdo.
Nina nua... atentem ao simbolismo da foto, que não é erótica e nem exibicionista... Quantas mulheres teriam coragem de se mostrarem assim, nuas e imperfeitas, mas sobretudo HUMANAS?
Olho para mulheres de corpos "perfeitos", roupas e cabelos impecáveis, cercadas de grifes e as vejo tão pequenas e insignificantes frente a essa pessoa "feia", dona de um "cabelo ruim", discriminada e agredida que transformou todo sofrimento de ser negra e mulher numa sociedade racista e machista em força e beleza, em arte libertadora: Nina Simone, "the high priestess of soul".
É claro que também admiro a beleza estética pura e simples, mas o que me move de verdade é o que me torna uma pessoa melhor. E o que me faz melhor não são meus batons (embora eles me alegrem), mas me sentir bem como sou, me expressar livremente, acreditar na igualdade, na diversidade cultural, que no mundo qualquer pessoa tem o direito de se expressar como é. De acreditar também, que todos têm como contrapartida a seus direitos o dever de respeitar e de não agredir o outro simplesmente por ser diferente ou por não estar dentro dos padrões predominantes.
Acredito sim, com convicção, que apesar da humanidade ainda enfrentar tantos problemas, exploração e desigualdade, o mundo hoje é um pouco melhor e mais belo por um dia ter exisitido alguém como Nina Simone - e não porque as pessoas descobriram que agora in é usar clogs e correram para jogar fora seus scapins.
Acredito que somos seres complexos, múltiplos e até mesmo contraditórios e que devemos trabalhar para nos desenvolvermos em todas as dimensões. A beleza externa é apenas uma delas, e só se apresenta plena quando valores, alma e intelecto são igualmente cuidados. Já repararam como algumas mulheres gordinhas, narigudas, com celulite ou com qualquer outra característica que nossa sociedade considera "defeitos" são vistas como mulheres lindas? Lindas sem photoshop...
Não falo das celebridades da TV e das revistas, falo de mulheres comuns que transpiram feminilidade e auto-confiança e que inspiram cada uma de nós quando demonstram um charme tão bem-resolvido e um conjunto tão harmonioso que aquela barriginha passa a ser irrelevante.
Sei que todos somos influenciados pela cultura em que vivemos, mas sei também que toda cultura, como fenômeno humano, é mutável. Sei que o que era justo em outros tempos, é hoje injusto, que o imoral de ontem é o que no momento é tido como desejável e ajustado, que o belo se tornou feio e vice-versa. Por isso procuro relativizar os padrões, mesmo que não consiga me libertar totalmente de todos. Por isso não acredito em nada que se pretenda absoluto e definitivo, o que inclui padrões de beleza. Acreditar que certas coisas nunca ficam bem para certas pessoas é para mim um absurdo flagrante, frente ao mundo que muda continuamente e com ele as concepções que as pessoas têm sobre todo e qualquer assunto.
A história humana nos mostra justamente o contrário. Por isso, digo que acho bacana ver mulheres com maior liberdade na vestimenta, na maquiagem e em qualquer forma de auto-expressão - porque sei que toda mudança social é movida pela discordância. Primeiro questionam alguns, depois poucos, depois muitos e o "outsider" de ontem se transforma no "mainstream" de hoje. Não foi assim com o Jazz, com o Rock, com regimes políticos assim como com a arte? A ciência não passa frequentemente por grandes revoluções? Da mesma forma, a minissaia foi absurda um dia e hoje virou uma peça importante no vestuário feminino, o sexo só depois do casamento deixou de ser regra, as mulheres, os índios, os negros e outras categorias sociais ganham cada vez mais voz e suas contribuições ao mundo não param de crescer.
Não sou contra regras e como cientista social sei a importância delas, mas sou a favor que as pessoas busquem mudar aquelas que considerem injustas, que incitem à discriminação e à violência de qualquer tipo, como o bullying sofrido por crianças na escola, simplesmente por não serem como os outros esperam, por serem gordinhos, baixinhos, "cdfs"...
Sou a favor que na beleza, na política e na vida, sejamos conscientes do que somos e de como agimos, passemos a valorizar nossas qualidades e deixemos de nos depreciar por nossos defeitos. Sou a favor de que nos cuidemos por inteiro, que desenvolvamos nossas identidades de maneira mais generosa, humana e menos limitada e pré-fabricada, que descubramos onde e como podemos ser sempre melhores, mais úteis, mais belos, mais felizes, sobretudo mais livres. Que saibamos nos expressar plenamente, sempre com respeito ao outro, que pratiquemos pequenas subversões estéticas no lugar de lamentarmos com o "não podemos isso porque não fica bem". Que ousemos num batom azul, desde que isso de alguma maneira nos faça bem. Sou a favor também de que não ousemos algo se não nos apetece, que respeitemos antes de tudo a nós mesmos. Sou a favor de sermos pelo menos um pouquinho como Nina Simone.
Isso é fácil? Não!
Não parece uma ilusão, algo impossível de ser alcançado? Sim!
Mas nem por isso devemos deixar de pensar a respeito e de lutar pelo que acreditamos, com resignação e desesperança. É por causa de sócrates, galileus, gandhis e ninas que podemos respirar com mais liberdade que nossos antepassados, é por causa de seres como eles, que muitas vezes pagaram com a própria vida por rejeitarem padrões dominantes exclusivos, que não vivemos ainda na como na antiguidade. É por pessoas que dedicaram suas vidas a lutas inglórias, consideradas perdidas, que hoje, em vários aspectos (embora não em todos), vivamos melhor.
É essa ideia que me motiva em tudo que faço e que agora expresso para vocês. É ela que me faz sentir viva. É a ideia de que tudo que fizer, vou procurar fazer assim. E isso passa pela beleza, ou melhor, para mim, é a própria BELEZA (que marca a existência humana): a capacidade de criar e de recriar, de ao mesmo tempo ser uma só humanidade e ser tão diversa.
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